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Brincar é Desenvolver: O Papel da Psicomotricidade na Infância

O brincar não é uma pausa no desenvolvimento da criança — é o próprio desenvolvimento. É a brincar que a criança aprende a conhecer o mundo que a rodeia, a si própria e os outros.

O brincar como linguagem natural da criança

Quando uma criança brinca, está a fazer muito mais do que passar o tempo. Ao correr, saltar, construir, imaginar ou explorar, cada criança está simultaneamente a desenvolver competências como a coordenação, a atenção, a linguagem, a criatividade e a capacidade de lidar com a frustração — um processo rico e complexo disfarçado de diversão.

O brincar livre tem também um papel emocional muito importante. Muitas vezes, aquilo que a criança ainda não consegue dizer com palavras fá-lo simbolicamente na brincadeira: nos papéis que escolhe, nas histórias que inventa, na forma como resolve conflitos imaginários.

“O corpo é o primeiro instrumento de aprendizagem da criança. Muito antes de saber ler ou escrever, é através do movimento e do jogo que ela constrói as bases de tudo o resto.”

Ao brincar, a criança desenvolve um conjunto vasto de competências de forma integrada, ou seja, um processo complexo que combina várias competências em simultâneo tais como:

  • Coordenação motora;
  • Equilíbrio e noção corporal;
  • Linguagem e comunicação;
  • Atenção e concentração;
  • Criatividade;
  • Resolução de problemas;
  • Competências emocionais;
  • Competências sociais.

A importância do movimento no desenvolvimento individual

O desenvolvimento infantil acontece através da ação. Desde os primeiros meses de vida, cada movimento realizado contribui para este desenvolvimento como por exemplo, a construção do esquema corporal, da orientação espacial, da coordenação e da relação com o ambiente.

Quando a criança sobe, cai, recomeça, empurra ou manipula objetos, está a desenvolver competências fundamentais para futuras aprendizagens académicas e sociais. Sabemos hoje que dificuldades ao nível do movimento ou da coordenação podem refletir-se em áreas como:

  • Aprendizagem da leitura e escrita;
  • Atenção e autorregulação;
  • Organização espacial;
  • Relação com os pares e autoestima.

Isto significa que, por vezes, as dificuldades de atenção e autorregulação identificadas mais tarde podem ter origem em questões do desenvolvimento que passaram despercebidas nas primeiras idades.

O que é a psicomotricidade?

A psicomotricidade é uma abordagem terapêutica e educativa que olha para a criança de forma global. Parte de uma ideia central: os desenvolvimentos motores, emocionais, cognitivos e relacionais estão interligados. O corpo não é apenas um instrumento de ação — é também uma forma de comunicar, sentir e aprender.

A intervenção psicomotora promove:

  • Consciência corporal;
  • Coordenação global e fina;
  • Equilíbrio e planeamento motor;
  • Autorregulação emocional;
  • Organização espacial e temporal;
  • Competências sociais;
  • Confiança e autonomia;
  • Comunicação.

A intervenção psicomotora pode decorrer de forma preventiva, educativa ou terapêutica, e adapta-se a crianças com perfis muito diferentes — com ou sem dificuldades específicas diagnosticadas.

Quando a terapia acontece a brincar

Nas consultas de psicomotricidade, o jogo é a principal ferramenta de intervenção. Não por acaso — é através do brincar que a criança se sente segura para experimentar, errar e tentar de novo como anteriormente mencionei.

Um simples circuito motor, uma brincadeira simbólica ou um jogo de equilíbrio podem trabalhar, ao mesmo tempo muitas competências tais como: a coordenação, o planeamento, a comunicação, a gestão emocional e a tolerância à frustração. Mais do que treinar competências isoladas, o objetivo é dar significado à ação da criança, respeitando o seu ritmo e a sua individualidade.

O que as famílias podem fazer

A criança não precisa de brinquedos sofisticados nem de atividades estruturadas para se desenvolver bem. Precisa, sobretudo, de tempo, de espaço e de um adulto disponível.

Numa rotina cada vez mais preenchida por horários, atividades extracurriculares e ecrãs, uma das melhores coisas que uma família pode oferecer é tempo livre — sem agenda, sem objetivos definidos, sem demasiada orientação adulta. Pequenos momentos do dia podem transformar-se em oportunidades de desenvolvimento:

  • Brincar no chão;
  • Explorar parques ao ar livre;
  • Dançar na sala;
  • Construir uma tenda;
  • Inventar histórias juntos;
  • Manipular materiais variados;
  • Jogos de movimento.

É nesses momentos aparentemente simples que a criança aprende a ser criativa, a resolver problemas, a lidar com o tédio e a descobrir o que a move. Tudo isto competências essenciais para uma vida adulta.

“Brincar é muito mais do que diversão: é a forma natural da criança crescer, aprender e relacionar-se com o mundo.”

Brincar é um direito. E é, acima de tudo, uma necessidade.

Referências bibliográficas
Ajuriaguerra, J. de (1977). Manuel de psychiatrie de l’enfant (2.ª ed.). Masson. — Obra fundacional que estabelece a relação entre corpo, emoção e desenvolvimento psíquico na criança.

Wallon, H. (1979). Do acto ao pensamento. Moraes Editores. — Descreve o papel do movimento e da emoção na construção da inteligência infantil.

Piaget, J. (1978). A formação do símbolo na criança. Zahar. — Analisa o jogo simbólico como instrumento central no desenvolvimento cognitivo.

Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Imago. — Explora o espaço potencial do brincar no desenvolvimento emocional e relacional.

Fonseca, V. (2005). Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Âncora Editora. — Referência central em língua portuguesa sobre psicomotricidade e aprendizagem escolar.

Fonseca, V. (2010). Manual de observação psicomotora: significação psiconeurológica dos seus fatores (3.ª ed.). Âncora Editora.

Associação Portuguesa de Psicomotricidade (APP). (2023). Enquadramento da prática profissional em psicomotricidade em Portugal. APP. Disponível em: www.appsicomotricidade.pt

Organização Mundial de Saúde (OMS). (2019). Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. WHO Press.

Ginsburg, K. R. (2007). The importance of play in promoting healthy child development and maintaining strong parent-child bonds. Pediatrics, 119(1), 182–191. doi:10.1542/peds.2006-2697

Unicef. (1989). Convenção sobre os Direitos da Criança, Artigo 31.º — Direito ao descanso, ao lazer, ao jogo e às atividades recreativas. ONU.

 

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